terça-feira, 17 de maio de 2011

A Assassina Ep2

Imagem: Maggie Q - Nikita

A perna não havia ficado totalmente boa mas conseguia disfarçar e poucos notavam que ela mancava. Isso poderia trazer dificuldades em caso de combate corpo a corpo mas sua determinação não a impedia. O fracasso da última missão poderia ter-lhe custado a vida, alguns na agência achavam que por ter tido a identidade revelada ela trazia riscos mas uma transferência para o exterior a poupara. Felizmente o chefe estava mais para um pai do que para um velho pervertido e não tentou se aproveitar da situação, algo que ela temia. No entanto, ele só acreditou nela quando a última tentativa para eliminar o alvo também fracassou. O sujeito foi envenenado mas aparentemente não teve nada mais do que uma dor de barriga. Até então o que se pensava era que ela havia esquecido dos seus objetivos ao ir pra cama com ele. "Mulher não serve pra esse trabalho, tudo coração mole", "se apaixonou na primeira trepada", foi o mais leve que ela ouviu.

Ela sabia que sua redenção poderia vir na próxima tarefa. Redenção, ela parecia buscar sempre por isso, cada piada era um tapa, cada morte um contragolpe mas nunca parecia suficiente. A nova missão era difícil e ela podia ser bem sucedida justamente onde homens falhariam por sua fraqueza: qual deles teria coragem de matar uma bela mulher?

A agência não se importava com as razões, se a procuravam para uma execução, esta era feita desde que o pagamento fosse feito. Pessoas sempre estão querendo que outras morram pelos mais variados motivos e a maioria era bem torpe. Na verdade, esses motivos sequer eram perguntados mas quando o cliente não falava, ficava óbvio pela investigação feita com o objetivo de identificar melhor o alvo.

Havia uma herança em jogo, irmãos brigando por uma fortuna. Dinheiro, o mais nobre dos motivos. O cliente queria tirar a irmã do caminho pois seu carisma e beleza faria com que os sócios e acionistas da empresa ficassem ao lado dela após a morte de seu pai, algo que não deveria demorar a acontecer. Seria algo arriscado pois a família procuraria saber quem matou a jovem herdeira mas o irmão faria tudo para abafar o caso. A agência não deixaria por pouco e trataria de armar um cenário adequado. Júlia era jovem, rica, bonita, gostava de luxos e festas dos mais variados tipos com praticamente qualquer tipo de pessoas. Traficantes, contrabandistas, álcool e drogas eram frequentadores habituais de suas comemorações e isso seria perfeito para esconder a real causa da morte.

Ela conseguiu se infiltrar num coquetel de inauguração da exposição de um artista que era amigo e apadrinhado da herdeira. Como o combinado, o irmão estava em outro país em busca dos seus próprios prazeres.

A aproximação foi feita em frente a um quadro que mostrava duas mulheres nuas em meio a borrões pós-modernos. Pra ela era tudo lixo pois sempre fora admiradora da arte clássica mas não pode discordar da anfitriã que se mostrava apaixonada pela obra.

- Reparei que está há bastante tempo observando este quadro, estaria interessada nele?
- Estou reparando na mistura de cores e as formas das mulheres.
- Eu o acho belíssimo, adoro a forma como ele mostra tudo sem mostrar nada.
- Como?
- Você não percebe? Ele retrata uma cena de sexo entre duas mulheres sem parecer vulgar, sem que elas sequer estejam se tocando.
- Desculpe, mas não consigo ver assim. Achei um belo quadro, as mulheres são lindas, as cores também, mas não vejo sexo nesta cena.
- Observe bem, as mulheres não se tocam mas todos os traços em volta fazem com que o olhar se direcione para elas, eles trazem um movimento de proximidade como se fizessem nossos olhos empurrar uma para a outra.
- Sim, estou vendo...
- E note como as cores parecem mais vibrantes conforme se aproximam delas.
- É... agora que você falou, consigo perceber a cena.
- É lindo! Notei até que uma delas se parece com você!

O sorriso e o brilho nos olhos da mulher revelaram que parte da sua empolgação era com o quadro mas parte envolvia a desconhecida que o observava. Ela sorriu com timidez, surpreendida pela constatação mas aceitou o convite para ver o resto da exposição ao lado dela. Estava gostando de ver as explicações sobre as pinturas, viu-se preconceituosa com relação à arte moderna e percebeu que estava até se afeiçoando à animada herdeira.

"Não, de novo o mesmo erro! Nada de emoções, parece que está amolecendo! Assim nunca terá o respeito que deseja e pode não ter muito mais tempo de vida pela frente se fracassar de novo."

A cada momento Júlia parecia se aproveitar para tocá-la como se quisesse sentir sua pele, por vezes mexia em seus cabelos. A noite foi passando e ela aceitou o convite para conhecer outras obras do artista no apartamento de sua vítima. Observou de longe o momento em que ela se despediu do artista e notou o olhar malicioso de ambos. Sentiu o estômago revirar.

Ao chegarem no apartamento Júlia, levemente alterada pelo álcool, ofereceu-lhe mais champanhe. Ela não tinha muita resistência para bebidas e passara a noite enrolando com apenas duas taças, sua anfitriã no entanto aguentava bem altas doses de álcool e parecia querer embebedá-la. Júlia tirou os sapatos e insistiu para que ela se sentisse à vontade, começou a mostrar suas obras de arte, a maioria envolvendo cenas de sexo, algumas entre mulheres. Ficava cada vez mais perto, sussurando ao seu ouvido, explicando cenas que não precisariam de legenda.

Ela foi sendo envolvida pelo clima, Júlia era realmente bela e sabia seduzir. Pensou que poderia ser uma aventura diferente, seu coração acelerou. Morte e sexo, seus maiores prazeres. Júlia sussurava-lhe no ouvido por trás, encostando-a num balcão, mostrava os objetos ali dispostos. Vasos antigos, um quadro, a respiração em seu pescoço a excitava, o perfume era delicioso, desenhos entalhados na bainha de uma faca, a mão de Júlia tocando-lhe os quadris. Ela fechou os olhos, aquilo estava ficando irresistível como sua última missão, fraqueza, prazer, ódio, nojo.

Puxou a faca da bainha, com um golpe afastou Júlia e com um giro a faca atingiu sua garganta abrindo-a de um lado ao outro. O sangue jorrou e ela observou os olhos incrédulos da bela herdeira caírem aos seus pés. Pareceu tentar dizer algo, o sangue jorrava pelo pescoço, a traqueia cortada com um golpe tão forte que quase separou a cabeça do pescoço. Ela se abaixou, tocou-lhe levemente os lábios e fugiu levando a arma do crime.

Um comentário:

Tinúviel disse...

AAaa...na verdade fiquei torcendo para a júlia enfiar uma faca no estômago da assassina e puxar até o pescoço. Hahahah

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