quinta-feira, 26 de maio de 2011

Cheeseburger


- Ei, trouxe seu cheeseburger.
- Ah, sabia que não faria uma promessa vã. Huuummm... delícia.
- O outro também é seu.
- Oh, que emoção, caridade! Achei que iria apenas me acompanhar no lanche.
- Não, eu jantei.
- E veio caminhar para fazer a digestão? Não tem medo de vomitar tudo me vendo aqui?
- Eu te conheci comendo um rato, isso não poderia ser pior.
- Hahaha!! Ratos!!

Ele comia com prazer, parecia realmente não comer um daqueles há muito tempo, talvez há muito tempo não comia algo parecido com comida. Demorou-se saboreando os sanduíches que eu trouxe.

- Roubou isso da sua lanchonete?
- Não preciso disso.
- E veio procurar companhia para conversa?
- Você não é a pessoa mais desagradável com quem já conversei, acredite.
- Ah, eu acredito. Você já viu mais coisas do que sua idade aparenta e elas não deixaram muitas marcas em seu corpo.
- E você também tem muito mais anos vividos do que marcas no corpo.
- Muito mais! Vi essa cidade crescer e fui o primeiro habitante de seus esgotos. Vi muitas outras cidades crescerem, gosto de variar.
- Quem vê seu ferimento e ouve sua história pode imaginar que você é imortal.
- É o que todos querem, imortalidade, seja em vida ou em morte. Obras de arte, livros, construções. Até filhos são uma tentativa de se manter na Terra por mais tempo, deixar os genes para a eternidade, a velha necessidade animal de procriar, todo o esforço voltado para o sexo. Seres humanos são muito narcisistas, querem ser idolatrados pela eternidade por qualquer arranhão que façam na Terra. O único arranhão que ficará será sua cova no chão!
- E você então não sente essas necessidades.
- Eternidade é um saco, ainda mais quando se vive no meio da merda da humanidade.
- Você se exclui da humanidade?
- Há muito tempo não faço parte dessa raça, muito antes de viver na escuridão e nos esgotos! Acha que só existem humanos com esta aparência? Sabe que não, você sente isso no fundo. Eu já pareci humano, agora não preciso mais disso, posso ser o que sempre fui.
- E o que você é?
- Eu sou o que todos são mas ninguém tem coragem para ser. Sou aquilo que todos escondem no fundo do pensamento, aquilo que não têm coragem de adimitir para si mesmos. Aquele pensamento mais impuro, aquele impulso assassino, algo que alguns pensam à noite antes de se deitar, que não confessam a psicólogos ou padres. O que mais sentem nojo, o que odeiam nos outros, aquilo de quem sentem vergonha e do qual gostariam de se livrar. Vivo no esgoto e é no esgoto da alma de cada um que eu resido porque estou sempre ali, sempre estive e nunca vou sair até o dia da morte.
- Esse é seu segredo, é de onde veio e de onde tira sua força.
- Esse sou eu.

Ele ficou me encarando, parecia olhar através de mim como se eu não estivesse ali e eu podia ver apenas seus olhos em meio a sua silhueta escura. Pareciam túneis emanando luz através do qual eu poderia ir ao fundo de seu ser como se pulasse em um abismo. A sensação era a de sentir mais do que ver, o mundo parecia estar em silêncio ao mesmo tempo que se podia ouvir ao fundo o lamento desesperado de vozes atormentadas.

- Estou cansado, acho que vou procurar um lugar para repousar essa carcaça velha.
- Não posso te oferecer uma cama, ninguém suportaria o cheiro.
- Melhor assim, não gosto da proximidade de pessoas, é bom mantê-las longe.

Dizendo isso se virou e esgueirou-se pela escuridão. Ouvia apenas o ruído de seus passos quando gritei.

- Soube da menina que desapareceu?
- Sim, estava deliciosa.

Um comentário:

Tinúviel disse...

Só quem é sagaz vai conseguir entender a última frase ;)

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