domingo, 22 de maio de 2011

Cheiro de Sangue

Lembrava-se do dia de sua iniciação. Chamavam aquilo de ritual mas não era como os que feiticeiros ou seitas religiosas estavam habituados a fazer. Não tinha nada a ver com magia, era o típico ritual de passagem em que era necessário apenas sobreviver. Ao final do treinamento eram colocados em uma arena no meio de cinco portas, uma luta seria travada e após a vitória muitos diziam que então o verdadeiro treinamento começava.


O mestre observava do alto junto com outros alunos. Depois de quarenta anos de treinos, era sua vez de lutar e mostrar que era digno de entrar para o grupo dos melhores. A primeira porta se abriu e cinco outros membros surgiram, todos desarmados como ele estava. Atacaram todos ao mesmo tempo, sua força e altura foram úteis neste momento. Com golpes rápidos ele conseguia manter alguns deles à distância mas alguém sempre o acertava por trás. Um soco nos rins, um chute no meio das costas. Ele revidava jogando alguém pelos cabelos contra outro, quebrava o nariz de um com um soco, um chute jogava outro longe. Levou um golpe na perna mas tal era o tamanho e força de sua musculatura que era como se atingissem uma árvore. Ao final os cinco estavam caídos, ele se mantinha de pé como se nada o tivesse atingido. Eles se retiraram e pouco depois outra porta se abriu.

Um touro arremeteu contra ele. Um animal descontrolado, pulava e escoiceava sem rumo até dirigir sua fúria contra ele. Desviou diversas vezes das investidas até que conseguiu posicionar-se entre as pontas do chifre e segurou-o pelo pescoço. Freou seu ataque com os pés descalços que arrastavam pelo chão de terra. Apertou o pescoço e conseguiu reduzir a respiração do touro que dobrou as patas. Soltou-o e antes que a fera pudesse reagir segurou o chifre com uma das mãos e socou-lhe várias vezes o crânio até que caísse desfalecido.

Após a retirada do touro a terceira porta revelou dois guerreiros mas estes estavam armados. Um chicoteava-lhe enquanto o outro o atacava com um bastão. A ideia não era matá-lo, apenas cansá-lo e amaciar a carne. Ele se divertia com aquilo, chegava a sorrir enquanto era atacado. Esperou o momento certo para agarrar o chicote e puxar o adversário com tanta força que o homem saiu do chão. Agarrou-o pelo pescoço e jogou contra o outro que, ao desviar, não percebeu sua aproximação e foi atingindo com diversos socos. Caiu desmaiado antes que seu companheiro se levantasse e este foi golpeado com a mesma força e logo estava no chão também.

O sangue e o suor escorriam por seu corpo, havia ainda duas portas a serem abertas e a quarta revelou uma matilha de lobos. Animais inteligentes que caçavam em grupo, o instinto lhes dizia que seu adversário estava ferido e poderia ser um almoço fácil. O Sol estava alto e queimava-lhe o corpo, os animais o cercavam e atacavam um por vez para fazê-lo cansar. Eras de lutas, aqueles animais eram acostumados a matar presas maiores do que ele. Ele sabia que não podia cair, isso seria fatal. Cada lobo era repelido com um soco. Por vezes um lobo conseguia agarrar-lhe o braço e ele sentia os dentes entrando em sua carne. Socar a cabeça do animal fazia com que o ferimento aumentasse mas ele não podia lutar e nem deixar que outros conseguissem agarrá-lo. Aos poucos conseguiu colocar a matilha para fora da luta.

Faltava a última porta, sua visão começou a embassar. Ele olhou em volta e todos estavam impassivos embora soubesse que o cheiro de sangue os excitava. Ouviu o barulho da porta e pode ver o magnífico animal que saia de lá. O tigre movimentava-se lentamente sem tirar seus olhos dele. Certamente estava com fome como os lobos, o cheiro de sangue de seu corpo o transformavam em seu banquete. O ataque foi rápido, uma besta de trezentos quilos pulando sobre ele com dentes e garras em sua direção. Sua esquiva foi rápida e o ataque passou em branco, o tigre voltou-se para ele de novo, outro salto e dessa vez ele saiu e acertou as costelas do monstro. A cena se repetiu e o tigre hesitou em atacar de novo. Tomado pela fúria ele mesmo correu de encontro à fera que dessa vez agiu defendendo-se. Ele conseguiu segurar uma das patas o que dificultou a movimentação do tigre. Socou e socou seu corpo várias vezes em vários lugares até que o animal consegiu soltar-se e afastar-se. Ele novamente atacou e conseguiu chutar o tigre no meio da testa, diante de tal ataque o animal tentou revidar mas a velocidade de seu oponente era maior, os golpes foram certeiros e a criatura deu-se por vencida.

Ele havia passado no teste, o ritual estava completo. A partir de então ele juntou-se ao grupo dos melhores guerreiros e tomou parte em diversas batalhas ao redor do mundo. Alistava-se em diversos exércitos como mercenário, apenas em busca de lutas e sangue. Cada morte que causava aumentava sua força e elas foram muitas o longo dos séculos. Seu tamanho assustava inimigos e sua força o fez maior que seus pares. Sua arrogância não lhe permitiu continuar junto daqueles com quem iniciara seu treinamento e ele acabou caçado. Por décadas ele fugiu e escondeu-se, mas a sede por lutas era grande e era sempre descoberto até ser posto fora de ação.

Lembrava-se do cheiro de sangue do campo de batalha mas hoje o único cheiro que lhe entranha as narinas é do esgoto em que vive e dos ratos de que se alimenta.

2 comentários:

Nana disse...

Affff...post pesado hein?

Bjs e fik c Deus. Tem post coletivo e selinho no blog!!!

Tinúviel disse...

Fiquei com pena de todos os bichinhos ;/

Me lembrou uma arena de Gladiador.Esse conto tem a ver com outro, é uma introdução né?..
e eu jurando que o personagem era uma espécie de nosferatu..rsrsrs

bjos

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