quinta-feira, 5 de maio de 2011

Ratos



Era noite fria e eu andava pelas ruas sem rumo como costumava a fazer quando tinha insônia, algo constante nos últimos tempos. Era uma estupidez, eu devia tentar não dormir durante o dia para ter sono a noite mas estava me acostumando à quietude da escuridão. Tinha tempo para pensar em muita coisa ao mesmo tempo que ia conhecendo a cidade que poucos viam. Afinal, os boêmios estão preocupados demais com suas vidas para observarem o que acontece ao seu redor.

Passava por uma rua deserta quando um pequeno ruído me atraiu. Olhei e vi um rato gordo se divertindo no lixo. Rapidamente uma garra saiu de um pequeno beco escuro e pegou o rato enquanto uma voz sinistra chiava.

- É meu, é meu, saia, é meu!

Me aproximei e vi o vulto segurando o rato. Ao perceber minha aproximação a criatura gritou e levou o roedor aos dentes rompendo-lhe o pescoço.

- É meu, minha comida, eu o vi primeiro!
- Obrigado, já jantei hoje.
- Não ofereci, é meu!
- Ok, já entendi, é seu, mas não preferia um hambúrguer?
- Hahaha! Faça piadas mesmo! Vá fazer algum palhaço rir e me deixe em paz.

Começou a jantar ali mesmo rasgando a carne fedorenta com os dentes enquanto o sangue lhe escorria pelo queixo. Não parecia humano embora o fosse e falasse levemente parecido com um. Fiquei observando a cena curioso.

- Não quero ficar atrapalhando mas, quem é você?
- Não quer, mas atrapalha. As pessoas fazem tudo que não querem, né? Não seria melhor fazer o que quer?
- Sim, mas também quero saber quem é você.
- Mas eu não ligo pra quem você é. Por que não vai pra casa dormir? Não é isso que devia estar fazendo? Ou melhor, o que queria fazer?
- Era sim, interessante você saber disso.
- E você devia saber melhor quem eu sou então.
- É... talvez eu saiba.

Parei de falar e fiquei de longe observando os ruídos que ele fazia e entendendo que tínhamos algo em comum. Foi um pouco de surpresa pra mim vê-lo ali mas nunca esperava encontrar um de nós naquele estado.

- Nós... É assim que falam, né? Nós somos isso, nós somos aquilo, nós temos, nós podemos, mas no fundo é tudo eu eu eu! E vocês que se fodam!
- Hahahahaha!!! Mas a humanidade não é toda assim?
- É, a humanidade toda come ratos no jantar e pombos no café da manhã.
- Bom saber que você faz várias refeições por dia.
- Como alguns traseiros de vez em quando também.
- Não quero saber das suas perversões sexuais!
- Você pode saber o que quiser de mim, não precisa perguntar, sabe disso.
- Imagino que você deve ter tido dificuldades de se manter vivo por esse tempo todo.
- Então que tal parar de imaginar?

Ao dizer isso ele colocou-se parcialmente para fora da escuridão e revelou sob a pouca claridade seu rosto deformado. Parte do seu crânio parecia ter sido arrancada, o olho esquerdo era quase à altura do nariz como se aquele lado tivesse derretido, a parte esquerda do maxilar superior não estava mais lá embora os dentes do lado direito tivessem sobrevivido. Tentei esconder meu espanto de como alguém sobreviveu àquilo.

- Ficou assustadinho, com medinho? Você sabe como eu sobrevivi, deixe de ser idiota!
- Sei, mas não entendo. Você não deveria ter sequer sofrido esse ferimento mas sobreviveu.
- Nem todos temos as mesmas forças, cada um cresce de uma forma, o mal de vocês é achar que todos somos iguais.
- Vocês quem? Sabe que não existe como deixar de ser o que nascemos para ser ou o que nos tornamos!
- E como acha que fiquei assim? Não existe volta, né? Você já deve estar percebendo isso, não? Será que é por isso que não tem mais sono a noite? Está com medo de ter que comer ratos pelo resto da vida?

Nesse momento perdi a calma e pisei na criatura prensando-a contra a parede.

- Você pelo jeito está enjoado de comê-los e está querendo que alguém termine esse serviço mal feito.
- Buá, que medinho que eu estou dele! Vai me esmagar aqui? Arrancar minha cabeça? Posso escolher o jeito que vou morrer?
- Por que eu deveria te dar essa alternativa?
- Porque eu posso preferir comer algo diferente hoje.

Falando isso senti meu corpo ser empurrado sem que ele me tocasse, fui jogado contra a parede e ele pulou em meu pescoço. Falando bem perto podia sentir o cheiro de seus dentes podres e do sangue do seu jantar. O odor era tão nauseante quanto sua aparência.

- Eu falei que não somos iguais! Não vivo nesses esgotos há tantos anos por sorte ou escolha! Não como ratos por serem a única coisa mais fraca do que eu, mas enjoei de carne humana e dos gritos que fazem ao morrer.

Se afastou de mim e notei que não era um homem baixo. Estava em pé e encurvado mas devia ter pelo menos dois metros de altura quando ainda era um ser humano.

- Humanos... "por favor, não me mate, tenho filhos, leve tudo que quiser! Buá buá!". A carne não é ruim mas apodrece, não consigo comer tudo de uma vez.
- Você tem observado movimento de outros dos nossos por aqui.
- Sempre vem e vão, se metem em alguma coisa, vão embora, morrem. Você não foi o primeiro a ser caçado, já notou isso - falou enquanto apontava para o rosto desfigurado - mas esperam que você seja o último. Vai ser exemplo, ninguém vai mais fugir se você morrer.
- Como se isso fosse possível.
- É... como se fosse possível... Deu uma risada sinistra e debochada.
- Então é isso, ninguém pode fugir e estamos sendo caçados por um dos nossos.
- É... um dos nossos... Outra risada debochada.

Ele se esgueirou pelo beco e sumiu na escuridão.

- Não precisa fugir, nos veremos de novo.
- Sim, eu sei que veremos, quero ver mais mortes. Ei! Me traga um lanche decente da próxima vez!
- Um hambúrguer!
- Cheeseburger! Adoro queijo.
- Pode deixar.

Um comentário:

Tinúviel disse...

Imaginei a criatura como um vampiro Nosferatu, tem alguma referência? (mas que gosta de cheeseburger né)rsrsrrs.

Adorei o ambiente meio soturno,e o diálogo.
conto bem legal :)

bjos

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