terça-feira, 2 de agosto de 2011

Purificado pelo fogo


Há alguns anos eu vivia em uma pequena cidade na Inglaterra. Vivi em várias delas, todas muito parecidas àquela época. Não podia passar muito tempo vivendo em apenas uma para não levantar suspeitas quanto à minha natureza. As pessoas perceberiam que havia algo diferente e eu teria que fugir, então antes que isso acontecesse, eu me mudava sem dar adeus. Pegava alguns pertences mais importantes, o dinheiro que havia juntado e desaparecia em alguma noite evitando estradas principais. Me instalava em alguma cidade e por causa da proximidade, mudava o trabalho, deixava a barba crescer, os cabelos, ou cortava conforme fosse conveniente. Era possível que habitantes da antiga cidade onde eu morava viessem até a cidade em que estava e eu acabasse sendo descoberto. Por muitos anos consegui evitar que isso acontecesse mas um dia eu não consegui evitar.

Já havia mais de vinte anos que eu deixara a cidade daquele mercador mas o sujeito me reconheceu. Não seria mesmo difícil, nada havia mudado em minha aparência e certamente naquele tempo eu também estava sem barba e isso facilitou as coisas para ele. O homem mostrou-se surpreso e assustado ao me ver naquela estalagem sem que nada tivesse mudado em minha aparência, depois de desaparecer sem dar sinais. Davam-me como morto e ele agia como se tivesse visto um fantasma. Seu espanto espalhou-se pelos que nos cercavam e todos começaram a me olhar com suspeitas. Era uma época em que histórias de bruxas e feiticeiros se espalhavam com facilidade e as suspeitas eram investigadas baseadas em crendices. Invariavelmente o destino dos acusados era desagradável.

Eu tentei argumentar com o homem dizendo que ele estava me confundindo com alguém mas caí em contradição depois dizendo que eu havia envelhecido mas ele não tinha percebido. Naquele momento não tinha mais como escapar, tentei fugir mas não tinha por onde, não quis lutar para não espalhar ainda mais o terror, seria fácil para mim escapar com luta. No meio da confusão ainda vi um homem sentado ao fundo, observando tudo com uma leve expressão de prazer, sem se mover. Fui aprisionado pelos cidadãos que me levaram ao representante local da Santa Inquisição.

As acusações eram baseadas em praticamente nada. O homem dizia que eu podia desaparecer, que não envelhecia, os outros moradores me apontavam os dedos lembrando-se de qualquer episódio levemente suspeito como uma queda após cruzarem por mim na rua ou um animal que morreu no dia em que eu cheguei na cidade. Meu destino estava selado mas eu sabia que eles veriam o pior.

A fogueira foi preparada no mesmo dia, havia o medo que eu fugisse durante a noite. Amarrado em meio aos galhos, fui inquirido pelo padre a renunciar a Satã e aceitar Jesus como salvador para que minha alma fosse perdoada. Eu não teria porque renunciar a quem nunca me relacionei. Nunca havia feito mal a ninguém e todas as acusações eram falsas. A fogueira foi acendida e o fogo ardeu à minha volta e em meio às labaredas ainda pude ver aquele mesmo homem da estalagem me observando.

Um comentário:

Tinúviel disse...

Gostei, quero a continuação.

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