quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O Velho Leopoldo


Ainda tinha muitos cabelos, quase todos brancos. Vivia sozinho e levantava-se praticamente no mesmo horário sem precisar do despertador. Descia as escadas com dificuldade para pegar o jornal e levar comida à velha gatinha que vivia na parte interna do prédio. Gostava de animais mas dava trabalho ter um, ainda mais em sua idade. Era melhor cuidar da gatinha que tinha a proteção das grades do edifício e a liberdade de sair quando quisesse. Às vezes acariciava um pouco o bichano antes de subir. Tomava o café feito na véspera - hábito antigo adquirido quando precisava acordar cedo demais para ir trabalhar - enquanto comia pão com queijo e lia o jornal.

Em seguida pensava no que fazer.
Se fosse um dia bonito podia sair e andar pela vizinhança, olhando as crianças crescendo enquanto ele envelhecia. Lançava olhares cobiçosos para algumas mulheres e olhares um tanto invejosos para alguns rapazes no auge da forma física. Hoje as costas e os joelhos o faziam gemer a cada vez que precisava se abaixar, motivo pelo qual quase tudo em sua casa encontrava-se a no mínimo meio metro de altura.

Cumprimentava as pessoas que encontrava nem sempre obtendo resposta. Notou como as pessoas nunca têm realmente paciência para um velho solitário. Sentia-se receoso de um elogio ou uma crítica ser mal interpretado então guardava seus pensamentos para si mesmo.
Voltava para casa – caso tivesse saído - e sentava-se para ver TV ou ler. Reclamava de algumas coisas que via consigo mesmo, falando sozinho. Fazia anotações e escrevia textos sobre o que pensava, sobre as pessoas, o comportamento delas e como o mundo à sua volta mudou ao longo do tempo. No início era mais comedido, como se os textos e histórias fossem passar pelo crivo de algum editor ou a análise de conhecidos mas hoje sabia que ninguém leria aqueles textos e então escrevia à vontade. Acumulava pilhas de cadernos.

Nunca se casou ou teve filhos, por alguns anos trocou visitas com a irmã que levava os sobrinhos para vê-lo. As visitas ficaram escassas com a passagem do tempo até que seu cunhado ficou viúvo. Os sobrinhos não tinham a mesma dedicação e ele pouco conheceu de seus sobrinhos-netos.

A aposentadoria lhe dava o conforto necessário, gastava pouco pois sua saúde debilitada reduziu o pouco que saía. As contas eram baratas, especialmente a de telefone que praticamente só acumulava poeira. Cansou de ligar para alguns amigos que a essa altura também já deviam estar mortos dado o tempo  que não davam notícias. Não queria mais nada de ninguém há muitos anos.

Passava dia após dia como diversos domingos, vida  que muitos aposentados levam com amargura mas pendurar as chuteiras não causou-lhe dor. Gostava de ter tempo livre para observar o mundo, algo que concluiu ter sido o maior passatempo que teve em sua vida.

Num dia como outro qualquer ele desceu com a comida para a gatinha. Ela não estava lá. Chamou, olhou em volta e deixou o bocado de ração no mesmo lugar de sempre. À tarde, quando saiu para ir ao pequeno mercado onde fazia suas pequenas compras, viu que a comida ainda estava lá e concluiu que o bichano havia partido. Só recolheu a refeição no dia seguinte pela manhã. A dona do mercado notou sua tristeza na semana seguinte quando perguntou se ele não levaria ração para gato.

Os anos passam. Um dia alguém nota que há algum tempo o velho Leopoldo não vai comprar pão, leite ou queijo. Um vizinho o xingou por não pegar mais os jornais e deixá-los acumulando na portaria, assim como a correspondência. Outro vizinho sentiu um cheiro estranho no corredor, a polícia foi chamada. O velho Leopoldo foi encontrado em estado de decomposição, sentado em uma poltrona, com um caderno no colo.

Os sobrinhos e seus filhos ocuparam o apartamento como achavam melhor, doaram ou jogaram fora praticamente tudo que o velho tinha. Ninguém entendeu o pacote de ração para gatos na metade se não havia gatos na casa. Os cadernos foram pra reciclagem e as histórias do velho Leopoldo nunca mais foram lidas.

Um comentário:

Tinúviel disse...

Gostei do seu conto, triste mas verdadeiro. Mostrou a realidade de muitos idosos que são largados, considerados como emprestáveis e quando falecem os parentes só aparecem para pegar a herança. Lembro quando fui a um asilo que os meus tios colocaram a irmã mais nova deles, ela não foi largada, o motivo foi que ela nunca se casou e nem teve filhos(sempre comentava que o marido dela era Jesus) e com o passar dos tempos foi perdendo a memória e até ficando louca, e ninguém podia ficar com ela lá, acharam mais cômodo colocá-la em um asilo bom, mas percebi que somente o meu pai e um outro tio(o Agostinho)que iam visita lá, o resto conformava-se em saber que ela estava em um asilo caro e considerado muito bom. Lembro que nessa visita percebi o tanto de idosos que foram largados, tinha um lá que estava a pelo menos 20 anos e não recebia visita, saí de lá bem triste e sei que não tenho coragem de abandonar os meus pais, devo tudo a eles, por mais que há muito tempo minha convivência com os dois não seja um mar de alegrias.

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