quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

A Última Criança

Havia onze anos desde que a última criança nascera. Era um fenômeno que deixava autoridades médicas perplexas e sem respostas e as autoridades religiosas buscavam as suas. Como sempre, diante da falta de explicações da ciência, a fé estava preenchendo o espaço. Aquilo parecia ser sinal do Apocalipse, nenhuma criança deveria ser julgada no dia do juízo final e então nenhuma mais poderia nascer, todos seriam adultos quando as trombetas soassem. Ainda havia a dúvida do que seria essa maioridade mas essa explicação tinha trazido cada vez mais adeptos para as diversas religiões do mundo.

No início foi difícil identificar. Abortos espontâneos e casais inférteis sempre existiram mas o primeiro sinal foi no vazio das maternidades. Obstetras também notaram pacientes após pacientes perdendo filhos. Clínicas de fertilidade, por outro lado, tinham filas e faturavam rios de dinheiro mas isso acabou se reduzindo diante do insucesso das inseminações. Foram se passando meses, anos e em buscas pelo mundo observaram que a criança mais nova já tinha mais de dez anos.


A população mundial foi reduzindo radicalmente, houve quem explicasse tal fenômeno como uma conspiração visando exatamente isso pois o mundo não podia mais suportar tantas pessoas consumindo seus recursos e poluindo o solo, a água e o ar. Mas não havia algo que pudesse ser consumido por todas as mulheres do mundo que causasse tal efeito. O aumento no consumo de produtos industrializados foi também apontado mas existiam populações remotas em que esse consumo ainda era muito reduzido. A poluição ou o aquecimento global eram as causas mais aceitáveis pela comunidade científica pois esses afetam a todos, uns mais e outros menos.

O confronto entre as religiões estava aumentando, conflitos estavam se tornando habituais e estes cada vez maiores culminando em guerras entre nações mais radicais.

Até que aconteceu. Uma mulher ficou grávida e gravidez se sustentou pelas primeiras semanas, chegando aos primeiros meses, passando da metade da gestação. O mundo viu aquilo como um sinal de esperança, religiosos viram como mais um sinal do Apocalipse: era o Salvador que estava voltando para realizar o julgamento. Vinham presentes e pessoas de todo o mundo para ver a gestante e tal tumulto preocupou a ela, o pai e os médicos que a acompanhavam. Era uma situação muito estressante e ninguém queria que aquela fosse mais uma frustração, todos queriam acreditar que algo estava mudando no mundo, para melhor.

Um dia, ao acordar, o pai da criança não viu a esposa ao seu lado. Andou pela casa, nada. Ela estava em gravidez avançada e por sua segurança não gostava de sair de casa, muito menos sozinha. Só um rapto explicaria aquilo mas como alguém poderia ter entrado lá e a raptado sem fazer ruído, sem que sequer ele sentisse a cama se mexer. A polícia foi comunicada, nenhum pertence dela, nenhuma roupa, nada havia sumido, uma grávida tinha saído de casa de camisola. Família e amigos contactados, ninguém a encontrava, buscas foram realizadas, cães farejadores, vizinhos, tantas pessoas que ao mesmo tempo que podiam causar mais confusão, tornavam impossível um desaparecimento assim.

2 comentários:

Tinúviel disse...

Uai, cadê a continuação?
Puro suspense

Morena disse...

MAS E AÍ?!???
Meu Deus como tu para uma história assim?!?!
Mto bem escrita!

Beijos saltitantes
Boa semana

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