quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O Duelo



Eu parei para atravessar a rua. Era uma rua larga, com quatro faixas, duas para cada lado. Parei diante da faixa de pedestres, o sinal ainda vermelho para mim demoraria para abrir. Do outro lado um cara mais novo, exatamente em posição oposta a minha se posicionava praticamente ao mesmo tempo. Olhei em seus olhos e ele pareceu não perceber, assumiu uma posição entre distraída e ameaçadora cruzando os braços. Ambos os lados da calçada estavam cheios, não haveria muito para onde correr, nossos caminhos se encontrariam diante da mira dos carros, loucos para pegar um desavisado que demorasse demais a cruzar aquela faixa cinza da morte e deixar seus restos mortais colorindo o asfalto de vermelho.

O confronto seria inevitável. Ele parecia confiar em sua juventude, eu sabia que minha barba me dava autoridade. Seria como o confronto de um leão jovem tentando tomar o lugar do leão mais velho. Esse tipo de batalha acontece há milênios nas savanas africanas e muitas vezes terminam em morte, uma etapa da seleção natural em que o mais forte deve sobreviver, o mais capaz de defender as fêmeas e a prole sai vencedor. A partir dali só seus genes permanecerão e se preciso ele matará os filhotes de seu antecessor para que suas fêmeas estejam logo aptas a receber sua semente.

Essa disputa pela preferência de passagem acontece todos os dias ao redor do mundo, com a diferença para os leões de que mulheres se defrontam com outras mulheres da mesma forma. É como o duelo final de um filme de Sergio Leone, apenas o Sol testemunhará a vitória. Os olhos se enfrentam antes das armas, desviar o olhar já é o primeiro sinal da derrota.

O sinal muda para verde como o lenço da donzela que cai no cão antes da justa. Como dois alces que correm para chocar seus chifres em um estrondo que fará os animais das redondezas pensarem que uma tempestade se aproxima. Eu caminho como se estivesse em uma ponte sobre um abismo, sem desviar um centímetro para os lados, uma marcha firme e determinada. Ele também vem com passos lagos para o embate que se dará próximo à dupla faixa que divide a rua. Apenas um poderá seguir sem se desviar, este será o derrotado que levará mais tempo para chegar à calçada levando sua vergonha sobre os ombros. Os grupos de ambos os lados da calçada caminham como dois exércitos medievais prestes a se chocar no campo de batalha onde membros e cabeças serão cortados e ossos serão encontrados por séculos.

Faltam poucos metros, caminho como se não tomasse conhecimento do meu adversário, olho através dele, não o enxergo, o ignoro, o desprezo, passarei por cima dele como um tanque se preciso. Ele vacila, olha para o lado buscando espaço, segue reto mas mostra que vai fugir, enfrenta-me ou corre, não há muito espaço para desviar no meio das pessoas que caminham. Há uma sutil redução na sua velocidade, eu avanço, o encontro é iminente, ele baixa o olhar, eu ergo o queixo, ele desvia, passa por mim evitando esbarrar em meu ombro. Em minha mente eu lhe mando uma mensagem:

Isso mesmo...

2 comentários:

Elita disse...

Hum voltou a escrever...
Curti!!!

Tinúviel disse...

Pensei que iria um rolar um embate pesado rsrsrs

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