terça-feira, 11 de março de 2014

Em Nome do Padre

O padre Benett levantou-se no mesmo horário de sempre, pouco antes do Sol raiar nesta época fria do ano. Sua idade já mostrava as dificuldades para alguns movimentos mas ainda tinha vigor para exercer seu sacerdócio e ajudar os necessitados da região. Era querido por eles, pelos fiéis e pela vizinhança, um senhor amigável com todos mesmo que nem sempre sorridente.

As articulações estalavam conforme se movimentava “coisa de velho” ele dizia, agravada pelo frio e pelo corpo pouco aquecido, ao longo do dia essa trilha sonora cessaria. Após suas orações preparou o café da manhã para dois como fazia nos últimos meses embora morasse sozinho. Comeu sua parte, embrulhou o restante e colocou em uma sacola. Mudou sua roupa e viu os primeiros raios de Sol entrando pela janela. Agradeceu ao Senhor pela oportunidade de vê-los mais uma vez e saiu de sua paróquia com a refeição extra nas mãos.

Caminhava devagar pensando no homem que vivia na rua a algumas quadras de distância que se apresentara apenas como João. Ele havia surgido por ali há meses e por mais que o padre insistisse, preferia morar na rua do que em um abrigo, sentia-se mais livre assim. Nunca contava sua história, aparentava ter idade para ser filho de Benett. Vivia da caridade das pessoas como qualquer morador de rua, e recebia a visita do padre que lhe trazia a primeira refeição todos os dias. Era mais uma das boas ações do sacerdote e o fazia caminhar pela manhã.

O vento frio incomodava e mexia os ralos cabelos do padre quando ele chegou ao beco em que João costumava dormir. Ficou surpre-so por não vê-lo entre seus trapos e passou a chamá-lo. Não havia resposta, ele olhava em volta a procura de algum movimento, nada. A sombra metros acima de sua cabeça não havia chamado sua atenção até que ouviu o bater das asas de um pombo. À primeira vista não entendeu o que era aquilo, como se seu cérebro tentasse identificar uma imagem nova. Havia trapos presos à parede, dispostos em uma forma pouco usual - como se fosse usual haver trapos presos à parede. Tomavam a forma de um grande pássaro, com o corpo e asas mas no meio dos trapos os olhos cansados do padre Benett começaram a identificar uma forma mais comum, mas aquilo não tinha nada de comum. Pernas, tronco, braços, dispostos da forma mais comum aos olhos de um padre, um homem seminu pendia entre os trapos com os braços abertos e a cabeça tombada. A incredulidade do que via impediam o padre de entender o que estava diante de seus olhos. Preso à parede a pouco mais de três metros de altura, João estava crucificado na parede.

O grito não saiu de sua boca, o fôlego falhou, o coração acelerou, apenas repetia em sua mente que João estava crucificado mas essa distorção dos evangelhos não era assimilada pelo seu inconsciente, uma luta se travava entre o que ele via e o que seu cérebro assimilava. Uma eternidade se passou até que ele conseguisse se mover e gritar por ajuda. Algumas pessoas já circulavam pela rua e viram o padre assustado, correram para ajudá-lo e a visão do homem pregado à parede chocava a todos. Fotógrafos, bombeiros, ambulância, polícia chegaram ao local, retiraram o homem mas não havia o que ser feito. O sangue que se esvaíra de seu corpo já havia coagulado, seu corpo estava rígido e frio, a morte pode ter vindo de forma lenta com as dores e o frio da madrugada.

Era apenas um morador de rua, talvez sua morte não tivesse mais repercussão do que uma nota de jornal mas a forma com que o mataram ganhou manchetes, pelo menos dos tablóides mais baratos, os jornais mais tradicionais foram reservados em estampar a imagem de um homem crucificado em suas páginas. Em outros a imagem ganhou a capa e foi exposta em bancas de jornal da cidade. Mesmo em outros países a imagem circulou, deixando alguns incrédulos de sua veracidade.

Em sua homilia dominical daquela semana, padre Benett, ainda chocado, falou sobre os horrores que viu, emocionado, citou os horrores do mundo, alertou para o caminho que a humanidade percorria até sua perdição, sua derrocada. Sua igreja estava cheia como há muito não via, algumas pessoas que se distanciaram provavelmente enxergaram um sinal naquela morte e voltaram às orações. Em alguns dias ou semanas aquilo seria esquecido, o padre já não tinha muita fé de que as pessoas voltassem a Deus e pensar que a crucificação de um morador de rua pudesse fazer isso o deixavam em enorme conflito com sua consciência.

Algumas semanas se passaram e apesar da blasfêmia e de alguns gritos indignados as investigações sobre o assassinato não evoluíram, por mais bizarro que ele fosse, pouca energia foi gasta para fazer justiça a um mendigo. Teria sido uma história para se perder no tempo se, numa repetição mórbida, ela não houvesse se repetido exatamente vinte e oito dias depois.

Quatro semanas e quatrocentos quilômetros de distância separaram a morte de João, o mendigo, de Mateus, o estudante. O jovem havia saído para uma festa com amigos, se separou deles a caminho de casa mas não chegou. Seus pais acionaram a polícia que só encontrou o corpo seminu do rapaz disposto em cruz, pendurado junto com suas roupas nas paredes de um prédio longe do caminho que ele percorreria na noite anterior.

Dessa vez as especulações sobre o assassinato passaram de “uma brincadeira de mau gosto” para “serial killer”, “seita satânica” ou “ira divina”. Podia ser o mesmo assassino pois o intervalo de tempo permitia com sobra o deslocamento e planejamento. A escolha das vítimas podia ser aleatória, apenas alguém que estivesse ao alcance. Trabalhou-se com a possibilidade de um grupo espalhado pelo país ou um assassino inspirado por outro. Já se especulava a data da próxima morte, vinte e oito dias em contagem regressiva e se a próxima vítima também teria nome de apóstolo e qual seria.

As apostas mais loucas pareciam certas pois vinte e oito dias depois, a quatrocentos quilômetros de ambas as mortes anteriores, Tiago foi crucificado.

2 comentários:

adaobraga disse...

Quem diria hein? A Bíblia, a religião, os religiosos continuam a inspirar as mais curiosas e interessantes histórias.

Elita disse...

Adoro os seus contos, sempre surpreendentes!

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