quinta-feira, 17 de julho de 2014

O Parque - parte 2

Até os onze anos eu era uma criança bem medrosa, daquelas de esconder a cara em filmes de terror e correr pra cama dos pais, ou da minha avó depois dela contar histórias de fantasmas ou de pessoas que estiveram em contato com o próprio Demônio. Sim, histórias de gente que conversou com Lúcifer, o Senhor das Moscas, Satanás, Belzebu ou sei lá que nome ele tenha. Eu era assustado e via monstros em sombras, me enfiava debaixo das cobertas, rezava. Então é curioso que poucos anos depois disso eu não tenha corrido ao ver um vestido branco sob cabelos compridos emanando uma luz estranha enquanto parecia flutuar sobre as plantas e folhas caídas no local. Eu nunca chegaria tão perto de um fantasma.

O fantasma me chamou com voz suave dizendo para que não tivesse medo e, não sei hoje até como, eu não tinha medo e me aproximei. Ele se virou para mim e vi um rosto feminino delicado, quase infantil, quase tão branco quanto o vestido. Antes que eu começasse a falar ela perguntou se eu ia sempre ao parque.

- Sim, mas nunca durante a noite. O parque só abre de dia.
- Eu sei, por isso só venho aqui a essas horas.
- E quem é você?
- Não sou um fantasma como você deve estar pensando. Não sou o espírito de uma menina que foi assassinada e sempre volta ao local onde seu corpo foi enterrado.
- Mas eu não pensei isso…
- Mas é algo em que vocês acreditam.
- Em fantasmas? Sim, muitos acreditam em fantasmas, duendes, fadas.
- E você acredita em que?
- Eu já tive muito medo de fantasmas, demônios mas acho que isso já passou.
- Pelo que eu vejo sim, até agora você não correu de mim.
- E quem é você? Ainda não disse.

Ela foi andando sem me responder, se embrenhando no meio das plantas e eu fui seguindo, sem jeito. Ela parecia não tocar as árvores, os galhos, não passava através deles mas eles pareciam abrir-se para sua passagem. Eu ia atrás desajeitado, tentando não fazer barulho como se aquilo fizesse diferença agora ou porque pensei que algum guarda poderia me encontrar. Tentava falar mas ela me ignorava exceto por alguns olhares sobre o ombro como se quisesse certirficar-se de que eu a seguia.

Chegamos a um caminho um tanto mais aberto mas ainda coberto por plantas vivas e mortas, a luz que ela emanava iluminava o caminho e eu me perguntava se ninguém a tinha visto antes. Por este caminho chegamos ao lago dos patos com sua queda d’água um tanto artificial. Quase totalmente obstruída por folhas e galhos, apenas um filete descia mantendo o lago vivo. Parece que nossa chegada acordou os patos que se puseram a nadar tentando se aproximar, algo incomum pois seu comportamento era fugir de pessoas. Concluí que eles só podiam estar tentando se aproximar dela enquanto atravessávamos uma passagem escorregadia sobre o lago maior.

Ela parou e virou-se para cima, olhando em direção à nascente da água e agitou um dos pés na poça d’água que um dia havia sido uma espécie de piscina natural. Eu andava com medo de escorregar nas pedras úmidas e ela parecia nem tocá-las dada a leveza com que andava. Descendo as escadas ela era seguida pelos olhos dos patos que pareciam aguardar alguém que os alimentava. Sua movimentação era tão suave que pensei sobre o fantasma da menina morta mas não creio que fantasmas atraiam animais daquela forma. Ao pensar nos animais eu comecei a ouvir mais pássaros e movimentação nas árvores em volta, como se a fauna local houvesse sido acordada.

Chegando finalmente à beira do lago ela foi cercada por todos os patos como se fossem todos filhotes tentando se aconchegar no colo da mãe.

- Pobrezinhos… Eles não ficarão aqui por muito tempo.
- Por que?
- É o que eu vejo, de alguma forma eles não estarão mais aqui quando eu o vir de novo.
- Quando me vir?
- Sim.
- Como sabe que nos veremos de novo?

Mais uma vez ela não respondeu. Eu odeio ficar sem resposta para minhas perguntas mas não me irritava com aquilo. Ela se voltou e caminhou sobre as folhas caídas. Nesse momento notei que seus pés pareciam realmente não tocá-las pois elas não se amassavam sob seu peso, aquilo não fazia sentido. Pude ver seu rosto melhor, olhos que pareciam ter três cores, pele suavizada pela sua cor pálida, um nariz pequeno, lábios grossos e sensuais para um rosto quase infantil.

- Você é um fantasma!
- Não, não sou.
- Como você passa pelas coisas sem tocá-las?
- Eu não preciso tocar em nada para mostrar que eu existo.

Ao dizer isso ela se aproximou de mim e tocou meu rosto. Esperei um toque frio mas sua mão era quente e então eu notei que já não sentia mais frio. Apenas um toque e foi possível que eu sentisse o conforto da cama mais macia que eu jamais viria a deitar, o calor perfeito vindo do toque de uma mãe ao amamentar um bebê. Meus olhos míopes foram capazes de ver formas, cores e detalhes impossíveis naquela escuridão. Podia sentir cada célula do meu corpo respirar, cada vaso sanguíneo ser percorrido com o toque de veludo do meu sangue. Me senti nu, desprotegido e armado da mais forte das armaduras. Meus olhos fechavam e eu via as cores de um lugar onde eu não estava, não sentia mais meu peso como se não houvesse mais gravidade, flutuave levemente sobre as folhas. Olhei para baixo e ainda estava no chão, olhei para ela e vi a luz de seu rosto, vi o mundo em seus olhos multicoloridos. Me senti feliz e seguro num local desconhecido e selvagem. Eu não estava mais no parque, estava longe de casa e não tinha medo por isso. Havia uma música que nunca havia sido tocada, havia pessoas que não existiam como se eu sentisse a energia vital e alegria de viver de toda a raça humana.

No momento seguinte estava em minha cama, acordando para ir ao colégio. Um sonho incrível e tão real que eu sou capaz até hoje, quase vinte anos depois, de lembrar de tantos detalhes. Por anos não tive mais problema de sono, teria sido um sono além de incrível, medicinal, pois praticamente me curou da insônia, passei a ser capaz de dormir como quem desliga um interruptor.

Teria sido um sonho incrível se, ao me arrumar para o colégio, eu não encontrasse meu tênis sujo de folhas e terra.

3 comentários:

Jairo Grossi disse...

Valeu, Gostei. Tu tens o dom da escrita.

Murdock disse...

Obrigado!

Tinúviel disse...

Gostei de toda a história, aprendeu com tolkien heim?

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