sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Estou Morto

Estamos no barco, enjoados e amedrontados, o mar nos atinge com força, a praia está próxima, posso ouvir disparos e explosões. O patrão para, a rampa desce, os primeiros soldados pulam, a água é funda demais, eu vou junto, o equipamento me puxa pra baixo, tento me livrar, não consigo, um colega cai por cima de mim, meus pulmões enchem-se de água, me sufoco.
Estou morto.

O barco avança golpeado pelas ondas, alguns de nós vomitam pra fora da borda, outros pra dentro. A rampa desce, avançamos, a água é muito funda, não consigo nadar. Me livro dos equipamentos e consigo encher minha boia, nado até a beira da praia, ouço explosões. Um disparo me atinge na perna, eu caio, outros abrem minha barriga, tombo de cara na areia.
Estou morto.

O barco cavalga as ondas enquanto avança, queremos nos livrar daquele inferno. A praia parece calma, muito calma, muito mais do que nos prometeram. A rampa desce, os tiros atingem a primeira, a segunda, a terceira fila de soldados. Sou atingido na cabeça, a bala perfura meu capacete.
Estou morto.

O patrão para o barco, consigo descer com dificuldade em meio a companheiros atingidos pelas metralhadoras, serviram de escudo para que eu descesse. Avanço na água me livrando do equipamento e inflando minha boia. Chego até a areia, consigo me esconder atrás de um obstáculo. Vejo outros rapazes serem mortos e caírem junto de outros mortos e feridos. Granadas explodem perto, o medo me congela mas avanço até um veículo destruído para me proteger. O disparo da artilharia atinge a carcaça inutilizada, sou jogado para o alto, o corpo semi destruído.
Estou morto.

A rampa se abre, a água é muito profunda, descemos e vamos direto ao fundo, o equipamento pesa muito. Me livro da mochila, do fuzil, de tudo. Consigo nadar até a praia. Uma explosão acontece bem perto de mim, não sinto minhas pernas, não sinto meus braços, meus órgãos saem pelo meu abdomem.
Estou morto.

O barco, para, estamos enjoados, a rampa desce e corremos para descer, são 200 metros até a praia. Corro e me escondo atrás de um obstáculo. Ouço as balas passando à minha volta, atingindo a areia, atingindo meus companheiros. Vejo um ser dilacerado pelos disparos. Consigo correr em meio a disparos arrastando minha roupa pesada pela água. Pego o fuzil de um companheiro morto, seu corpo é perfurado por uma metralhadora sem muita pontaria, aqueles tiros eram para mim. Corro avançando mais. Caio no chão, chego até a barreira de seixos. Soldados mortos e feridos se acumulam por ali, preciso sair daquele lugar. O disparo dos morteiros se aproxima, estão calibrando a pontaria, estou congelado pelo medo, tremendo de frio. O atirador acerta a mira, a explosão ocorre ao meu lado.
Estou morto.

O barco navega através das ondas, agitado, nos aproximamos e posso ouvir explosões. Estamos tensos e enjoados, queremos desembarcar logo, nada parece ser pior do que aquilo. O disparo de um 88 atinge nosso barco. Explosão. Sou jogado como um boneco de pano.
Estou morto.

Desço pela rampa para a água, vou ao fundo e consigo me arrastar largando o equipamento. Consigo me arrastar pela água em meio aos tiros de metralhadora, chego até a areia, sinto o impacto na perna direita, na esquerda, caio de joelhos, balas me atingem no ombro, peito, barriga. Caio no chão.
Estou morto.

Estamos chegando à costa, tanto enjoo que me sinto mais morto do que vivo, horas naquele barco agitado pelo mal tempo do canal. Podemos ouvir as explosões e gritos, queremos sair logo dali. Uma explosão nos atinge, fogo, não temos pra onde correr, sinto as chamas no meu corpo, o lança-chamas de um companheiro explodiu nos incendiando, pulo no mar em desespero, o corpo arde, respiro água.
Estou morto.

Consegui atingir a praia arrastando o uniforme molhado e o resto do equipamento que consegui levar. Tiro a boia, me jogo no chão para evitar as balas. Um colega cai morto ao meu lado. Tento alguns disparos inúteis contra o ninho de metralhadoras. Me levanto, corro até a barreira de seixos, alguns estão avançando pelo campo minado, outros ficaram tendo a muralha marítima como seu leito de morte. Me levanto, corro pelo platô, piso errado, atinjo uma mina.
Estou morto.

Estamos em nosso blindado esperando o momento de desembarcar. Devemos avançar um pouco pela água e então atingir a areia. A rampa abre espaço e o veículo avança. A água começa a entrar, é fundo demais, o veículo é inundado, tento sair, não consigo.
Estou morto.

Depois de quatro horas naquele barco maldito conseguimos desembarcar depois de me livrar do café da manhã pela amurada. Pude ver um barco explodir e seus passageiros serem jogados como bonecos em câmera lenta. Avanço pela rampa, pulo na água, ela cobre minha cabeça. Inflo minha Mae West, largo boa parte daquele monte de tralha que nos deram pra levar. Inflo a segunda boia, chego até a praia, caio, me arrasto, levanto. Pego um fuzil e maços de cigarro de um colega morto. Me escondo atrás de um obstáculo já sendo tomado pela maré que sobe e avança rápido, preciso sair dali. Tomo coragem, prendo a respiração e corro. A primeira bala me atinge, continuo avançando, sinto mais duas me atingirem no peito e barriga. Caio, tento me arrastar, as forças se vão. Olho para a praia e vejo mais companheiros desembarcando, mais jovens sendo mortos. Queria poder lutar mas não consigo, mesmo assim tomaremos a praia, avançaremos, venceremos a guerra.
Estou morto.

Praia de Omaha, Normandia. 6 de junho de 1944.










2 comentários:

Tinúviel disse...

Me vi jogando algum jogo de guerra hahaa...toda hora tento um novo jeito de não morrer.

Rellfy disse...

Muito interessante, gostei.

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