sábado, 25 de julho de 2015

A Boneca

Recebi a notícia de que Erika estava doente e era grave. Alguma doença que os médicos não conseguiram identificar parecia sugar sua vida fazendo com que ela definhasse rapidamente em sua cama. Fui visitá-la na casa de sua mãe onde ela estava recebendo cuidados e visitas enquanto seu marido cuidava dos filhos. O mais velho parecia em choque ao ver a mãe daquele jeito enquanto o pequeno era novo demais para entender, embora percebesse a fraqueza da minha amiga.


Mostrando bom humor com a situação, Erika dizia que estava sendo tomada por espíritos maus e por isso tinha enchido as paredes do quarto com alho, para afastar vampiros. Ela e sua atração pelo terror e essas criaturas míticas sobre as quais havia até escrito um livro. A continuação pelo jeito ficaria inacabada.


Mais amigos nossos chegavam para vê-la, chorando, aquilo era inaceitável, uma pessoa tão nova com a vida se esvaindo daquela forma. Era despedir-se de alguém ainda em vida, coisa parecida com um funeral antes da morte.


Além do alho na parede uma peça de decoração no quarto de Erika me chamava atenção, uma espécie de manequim que ficava ao lado de sua cama. Era uma mulher em tamanho natural, o rosto pintado no corpo de plástico, um pouco realista demais, trajando um vestido vermelho e longos cabelos negros e lisos. Era uma boneca que ela tinha desde a infância mas havia ficado na casa dos pais quando ela se casou e agora estava ali de novo, ao lado da cama dela como se a velasse ou cuidasse mas de alguma forma achava a figura ameaçadora.


Talvez por ter suspeitado, talvez por ter sentido, a verdade se revelou a mim pela própria boneca que ganhou vida e se dirigiu a mim com palavras ameaçadoras. Apenas eu a via se mover e apenas eu a ouvia. Ela me ameaçava com tormentos e dores terríveis caso eu a atrapalhasse em levar minha amiga mas eu comecei a enfrentá-la da forma que podia e sabia. A entidade naquela boneca se irritava cada vez mais, porém eu não desistia, mesmo sentindo suas mãos em meu corpo parecendo que ia despedaçá-lo.


A luta teve resultado pois minha amiga recobrou a consciência e começou a se sentir melhor. Enquanto ela voltava à vida eu pude ver do outro lado da cama uma outra entidade, como um homem vestido de azul escuro, olhando para ela como se a protegesse. Ninguém o viu também mas viram Erika se levantar. A boneca não tinha mais vida.


Depois que contei o que houve para Erika resolvemos tentar investigar o que houve de verdade e chegamos a um manicômio. Conseguimos convencer os responsáveis a olhar os aposentos dos internos e fomos vendo, através de grades, as almas perturbadas daquelas pessoas. Olhávamos quartos e armários e dentro de um deles, pintado no fundo, na parede branca, havia três marcas circulares marrons, parecidas com umas que vi na parede do quarto de Erika, porém as dela estavam mais gastas, quase sumindo. Não sabia dizer se aquilo era como uma antena que transmitia o sinal para as marcas no outro quarto ou se eram um aviso de que ali teria uma próxima vítima daquela entidade de vermelho mas sabíamos que tínhamos que entrar naquele quarto.

Ao entrarmos lá estava, uma das internas, com um vestido vermelho e cabelos negros como a boneca de Erika.
*Esse conto foi baseado num sonho que tive essa semana. Não trabalhei detalhes, apenas relatei o que consegui lembrar ao acordar.

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