segunda-feira, 27 de julho de 2009

Amizade de cu é rola

Ao contrário do que gosto de fazer, esse vai ser um texto longo e, por ser longo, sei que quase ninguém vai ler por inteiro e como quase ninguém vai ler, vou soltar alguns cachorros. De repente é bom até quem não leu tudo nem comentar mas, se mesmo assim quiser, admita que não leu. Ninguém deu muita atenção ao passo a passo do toscoshop então não espero que ajam diferente com isso aqui.

Não comemorei dia do amigo, não mandei e-mail nem cartão nem mensagem pra ninguém, no máximo dei uma ou outra resposta. Não estou em boa fase pra comemorar amizades e ando duvidando das pessoas, cada vez mais aborrecido com elas.

Estou cansado de tantas decepções. Quanto mais eu penso, mais falo, mais vivo, eu vejo só decepções para mim e para os outros. Outro dia eu falei que você só é legal enquanto é útil e muita gente concordou. Uma ou outra estranharam, vieram perguntar o que era aquela frase, curiosamente algumas pessoas que me inspiraram a escrevê-la mas eu não falei disso com elas, a verdade incomoda e essa frase já incomoda um bocado.

Aprendi que, cedo ou tarde, as pessoas vão me sacanear, de uma forma ou de outra e parece que isso vale pra todo mundo também. Então não adianta depositar o mínimo nelas, não vale a pena confiar, demonstrar carinho ou o que seja.

Outro dia recebi um e-mail pedindo doação de sangue, era o repasse do repasse. Fui ver o texto original, reconheci o e-mail e vi que era de uma colega minha cuja avó estava precisando. Lembrei de quantas vezes eu procurei saber como ela estava, das vezes que conversei sobre os problemas dela, das vezes que mostrei preocupação. Pra que? Pra ficar sabendo pelo repasse do repasse do e-mail que a avó dela estava precisando de doação de sangue. Quer dizer, é mais ou menos isso que a gente recebe por tentar ser amigo. Reparem que eu não cobrei que ela se preocupasse comigo, que tentasse manter contato ou o que fosse, disso já desisti, fiquei chateado por ver que minha preocupação era à toa.

Um clássico de quem tenta desabafar é ouvir de volta uma lista de problemas maiores da pessoa, de conhecidos ou dos pobres do mundo. Eu digo que o maior problema do mundo é o seu porque só você pode fazer alguma coisa por ele e saber dos problemas dos outros não faz o seu ficar menor porque ele é seu. Muita gente tem problemas mais grave, é verdade, mas e daí? Foda-se, eu não posso resolver os problemas do mundo e só porque um não tem o braço e a perna que o maneta vai ficar mais satisfeito. Vai ficar mais resignado, só isso, mas ele ainda vai ter dificuldades pra tocar guitarra.

Então me dá no saco quando eu tento desabafar sobre o que está me acontecendo e o outro vem desfiando um rosário de problemas e acaba revertendo a situação e se lamentando comigo enquanto me critica por eu reclamar dos meus problemas. Quer dizer, os dele eu tenho que ouvir mas os meus são merda. Ou então quando começam a contar dos problemas dos outros. Ainda mais no meu caso atual, isso só serve pra ver que amigos eu tenho.

Esse papo de tentar me convencer de que não tenho problemas já deu também, cheguei a ouvir que eu tinha tudo quando nem emprego eu tinha direito, sem falar que nem pai eu tenho, avô não tenho nenhum há oito anos e minha família cabe, literalmente, num fusquinha.

Outra é uma velha questão que sempre acontece comigo, ser preterido. Perdi a conta de quantas e quantas vezes o programa que eu tinha marcado com alguém foi deixado de lado por um churrasco ou qualquer outro programa mais interessante, nem que seja dor de corno em casa. Odeio quando furam comigo, quando marcam alguma coisa e, em cima da hora, desmarcam, depois de eu ter deixado de aceitar vários outros convites por causa daquele. Pra mim a prioridade é a ordem de chegada. Mas comigo não, parece que qualquer outro evento é mais interessante, churrasco, cinema, show, futebol. E olha que eu sou do tipo que entendo quando a pessoa tem realmente algo mais importante pra fazer mas já terminei namoro por que tudo pra ela era tinha preferência, de pegar a mãe no ponto de ônibus a dar banho no cachorro.

Ah, mas quem me conhece um pouco mais vai dizer que eu vivo recusando convites. Ok, sou chato pra certas coisas mesmo, não sou de fingir que gosto de alguma coisa só para agradar mas muitas vezes me sacrifico por alguém. Mas também sei que muita gente chama os outros para dar número ao seu evento, dar público, dizer que “bombou”, se não fosse assim essas pessoas não seriam aquelas que eu listei mais acima, que furam, que largam de mão, que ignoram. Se você leu até aqui sabe quanto são dois mais dois. Na hora do evento delas querem número mas são as primeiras a trocar o eventos dos outros por algo mais interessante.

Quando eu estava para fazer meu aniversário desse ano contei como não estava animado e falei das pessoas que não iriam. Muita gente me falava para eu dar atenção aos que foram. Eu só chamei quem eu queria que fosse, não chamei ninguém para dar número até porque não se consegue dar atenção a ninguém direito. Mas e o contrário, será que existe? Será que alguém dá valor aos que vão ao invés de se lamentar pelos que não foram?

E os “amigos” que querem ajudar te enfiando numa merda maior ainda? Uma vez eu disse que ia aprender dança de salão, um monte de gente criticou. Aí falei que ia passar a beber e todo mundo adorou, quiseram saber quando ia ser o primeiro porre. Vários dizem estar aí a solução para tudo, a base para a felicidade, beber. Felicidade vem engarrafada, enlatada e as pessoas perdem tempo procurando em outros lugares. Isso quando não me oferecem coisas mais legais, tipo maconha e cocaína. Quando eu comecei a fazer Kung Fu, há seis anos, teve gente que riu na minha cara, sem exageros. Hoje sou vice-presidente da minha associação, instrutor filiado à Federação Estadual de Kung Fu do Rio de Janeiro e estou a poucos passos de chegar à faixa preta. Não falo pra mais ninguém dos meus planos, do que faço ou o que invento de fazer.

Alguns vêm falar de postura negativa. Não sabem nem para onde está ventando e vêm falar alguma coisa, dizendo que só olho o lado negativo. Bom, se eu estiver falando do lado negativo, certamente estarei olhando para ele. Se eu acho que estou com problemas e estou triste não é vendo apresentação de Power Point com mensagens edificantes que eu vou pensar diferente. Sou uma pessoa que, quem está a minha volta, não percebe quando estou mal, não mesmo. Consigo esconder isso muito bem, não desconto nos outros, no máximo fico quieto, na minha. Só que tem vezes que quero falar, colocar alguma coisa pra fora, desabafar e é aí que vem esse tipo de gente falando que estou sendo pessimista, negativista, amargo, estou olhando o lado ruim das coisas e começa a tentar dizer que minha vida é boa, que tenho tudo e lista problemas dos outros que seriam maiores ainda.

Mas eu ainda me esforço, às vezes tento explicar pra essas criaturas, me fazer entender ou fazer com que elas raciocinem um pouco, o que deve ser difícil. Por vezes acho que só eu sei me colocar no lugar dos outros e tentar entender o que eles estão realmente passando e essa minha habilidade é até muito boa. E aí eu tento contar um pouco do meu passado, das coisas pelas quais já passei pra ver se elas tentam pensar como psicólogos ou historiadores que sabem que o passado serve para entender o presente, qualquer psicólogo formado por correspondência vai querer saber do passado do paciente dele. Mas aí o que fazem os gênios? Dizem que estou reclamando do passado, que isso já foi, já era, que estou me lamentando. Aí eu vejo de novo que estava só perdendo meu tempo, gastando saliva e vejo de novo que tipo de amizades eu tenho.

Enquanto isso eu me pego no telefone ouvindo uma lamentando porque levou um pé na bunda do namorado casado, outro que chora pela filha, alguém pelo cachorro, uma que não consegue namorado, outra com paranóia com o dela, vejo mais e mais frustrações com relacionamentos que, de uma forma ou de outra se encaixam no que eu falei aqui. O tempo passa e parece que eu já vi de tudo, as historias se repetindo e vai ficando cada vez mais fácil me colocar no lugar dos outros enquanto no meu lugar só eu mesmo pra saber como estou me sentindo. Sozinho como sempre.

7 comentários:

nina_zaretchnaia disse...

ah eu li tudo num só fôlego, e tem coisas que batem exatamente com o que sinto. tem coisas que discordo, mas consigo entender seu pensamento. gostei do seu desabafo, me faz pensar que também preciso do meu.
bjinhos

Anônimo disse...

ja me senti exatamente assim... as vezes ainda acontece

Camila Guinsani disse...

Daniel,
I feel the same...
:)

Devaneios da madrugada disse...

Acredite, li letra por letra. Eu me sinto assim em várias frações de segundos do meu dia. E às vezes dá vontade de sumir por isso... mas viver é preciso :)

Bruno Vilar disse...

Muito divertido o texto, mas o assunto é bem serio... estava lendo e rindo pois em encontrei no texto inteiro.
Parabéns!!! O Texto ficou show

mah felix disse...

Me indentiquei mt

inara alves disse...

Nossa, me vi em cada vírgula do texto, muito bem escrito e empático 👏👏👏

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