quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Minha avó Argentina

Minha avó era Argentina. Assim mesmo, com letra maíuscula. Se chamava Argentina da Cruz Almeida (nome de casada), nasceu em 1908 numa fazenda do Sergipe. Ainda pequena foi para Penedo em Alagoas, às margens do Rio São Francisco, onde cresceu. Meu avô era dez anos mais novo e nasceu em Piranhas, Alagoas, aprendeu a nadar no Rio São Francisco e se chamava Cadmo Brandão de Almeida, nome escolhido pelo pai que batizou outros filhos com nomes de cientistas e filósofos como Rui, Galileu, Netuno e Cardec. Estudado mas não necessariamente carinhoso, colocou meu avô em um barco quando ele completou 17 anos. Não sei com que idade se casaram, sei que vieram meio fugidos da família dele. Constituíram família aqui no Rio de Janeiro e criaram minha tia e minha mãe. Por isso digo que tenho 50% de sangue nordestino.

A família do meu pai é parte turca e parte portuguesa. Meu bisavô chegou ao Brasil vindo de terras árabes, trouxe o nariz que herdei mas perdeu os documentos. Não sei escrever seu nome original, só o traduzido, quando se registrou aqui, José Antônio da Silva. E daí vem o Silva do meu nome, não de Portugal como a maioria dos Silvas do Brasil. Estabeleceu-se em Vassouras onde criou dez filhos, incluindo meu avô, que lá criou meu pai, que andava de lambreta com minha avó na garupa.

No último censo minha mãe declarou a ela e a mim como pardos mesmo que dificilmente sejamos vítimas de racismo.

Hoje estou arrepiado e com medo do futuro do Brasil. Não pelo resultado das eleições, mas pelas consequências. Pessoas do Sul e Sudeste culpando os do Norte e Nordeste por este resultado (já confirmando como algo ruim) e, pior, proclamando palavras de ódio contra estes. Não são apenas frases vazias, brincadeira de criança, são pessoas dizendo aos quatro ventos para que se matem nordestinos. Eu falei no último post que nordestinos são alvo dos neonazistas de São Paulo e do Sul, esse tipo de pensamento dá mais força a grupos assim. Mesmo que alguns não ajam, fecharão os olhos quando um nordestino for agredido. Se valendo desse tipo de preconceito algum político pode surgir querendo implantar ideias inovadoras como um visto para entrada em São Paulo. Más intenções e brechas na lei existem aos montes.

Quem acompanha aqui sabe do meu interesse na Segunda Guerra Mundial e dificilmente alguém pensa nesse conflito sem lembrar do Holocausto. Por mais que revisionistas tentem negar a existência desse episódio, não negam que um grupo em especial foi segregado e aprisionado. Hitler subiu ao poder prometendo acabar com a crise e culpando este e outros grupos. Não pensem que esse tipo de coisa não acontece no Brasil, pode estar começando agora, diante dos nossos olhos. E esta ação está causando a reação dos nordestinos, que já pregam palavras de ódio a paulistas e sulistas.

Você culpa um grupo pelas favelas, pela violência, pela pobreza. Culpa uma região do país pelo resultado de uma eleição, por ter que pagar mais impostos para sustentar a população desta região. Alguém surge capitalizando isso tudo e está feito. Na Europa são os imigrantes, aqui são os nordestinos. Quem sabe os negros não serão culpados pela violência? Associar o número de presos negros e pardos à causa da violência é fácil, como fizeram associando o nível de instrução aos votos nas eleições.

A questão não é mais política, Dilma ou Serra, essa já foi resolvida dia 31. A coisa agora pode ser mais grave se essa ideia continuar a aumentar, se frases racistas e preconceituosas continuarem sendo propagadas e divulgadas no Twitter. Será que logo veremos uma camias com a frase "Faça um favor ao Brasil, mate um nordestino"? Ao contrário do que disse minha amiga Fabíola, esses caras não tem o direito de serem estúpidos, não dessa forma.

Para quem educa, como pai ou professor, vale a pena falar disso. Recentemente não me sai da cabeça aquele questionamento de que estamos preocupados com o mundo que vamos deixar para nossos filhos, mas estamos preocupados com os filhos que vamos deixar para este mundo?

Minha esperança é que brasileiro esquece tudo muito fácil, a eliminação do Brasil na Copa já ficou pra trás, logo as eleições também ficam, chega o carnaval e os ricos e brancos do Sul e Sudeste irão se esbaldar nas praias paradisíacas do Ceará, Rio Grande do Norte e Pernambuco e se divertir no Carnaval de Salvador, Olinda e Recife.

Para acrescentar:

http://www.viomundo.com.br/opiniao-do-blog/o-preconceito-que-se-esconde-por-tras-do-mapa-vermelho-e-azul.html
http://www.conversaafiada.com.br/pig/2010/11/02/elite-redesenha-o-brasil-sp-e-sul-e-rio-e-mg-caem-para-o-nordeste/
http://limpinhocheiroso.blogspot.com/2010/11/31102010-o-dia-em-que-o-preconceito.html
http://xenofobianao.tumblr.com

4 comentários:

Anna Flávia disse...

Excelente observação, Daniel.

Anônimo disse...

Muito bom mesmo! Daria uma ótima pauta pra uma palestra em escola.
Bjs , GisaRJBR.

K-cau disse...

Muito bom seu texto!! Tb acho que essa "revolta descabida" daqueles que acreditavam que o Serra ia mudar nossa vida, já passou dos limites.
Estão disparando ofensas e isso não vai adiantar nada. Dilma venceu. E não foram só os nordestinos que votaram nela não. Foi a maioria.
Esse tipo de discriminação baixa é que geram as guerras, as mortes. E vc fez muito bem em tocar no Holocausto, pois é uma comparação muito válida. Temos que nos unir agora e não nos atacar, e acreditar e torcer para que a escolha do Brasil (sim, do BRASIL) tenha sido a melhor.

¤(`×[¤ Juzinhah ¤]×´)¤ disse...

Eu agora entrei nesses links que vc deixou aí embaixo e fiquei abismada... quanta gente preconceituosa nesse país! murdock, fico chocada com a quantidade de gente nova, gente de condição, gente teoricamente estudada e esclarecida falando bobagem aos 4 ventos... é uma vergonha realmente, os nordestinos q deviam querer se separar de um país que só os explora e maltrata!!!

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